sexta-feira, dezembro 14

Estou um bocadinho farta do Pai Natal...


Era Dezembro e todos esperávamos que a magia acontecesse.
Da cozinha quente chegava-nos um cheiro doce a rabanadas acabadas de fazer, envoltas em canela, fumo e calor do fogão de lenha de casa da minha avó.
O presépio magnificamente simples fazia-nos lembrar a essência e a verdadeira importância do Natal.
Todos os anos, o Avô esperava por nós e juntos íamos pela serra apanhar musgo verdinho e húmido nas sombras dos pinheiros, entre as pedras escondidas e em lugares únicos que só o meu avô conhecia.
Depois do musgo era a cortiça, para montar o estábulo igual ao de Belém. Então, num misto de medo e excitação, entravamos sorrateiramente num terreno que não era nosso, um de nós ficava de vigia, e o avô descascava o sobreiro com mestria de rapinador.
Era uma tarde tão bem passada com uma intimidade profunda de sentimentos puros…
Voltávamos com as unhas pretas e a alma clara cheia de gargalhadas francas e simples, e aquilo fazia-nos bem.
Forrávamos o armário com uns panos verdes, cuidadosamente lavados de um ano para o outro, e espalhávamos o musgo. A avó montava o estábulo e,
atenção, muita atenção, que íamos desembrulhar o presépio.
Todos os anos era como se fosse a primeira vez que o víamos. Abríamos a boca de espanto e o coração enchia-se de uma inexplicável ternura.
Era tão bonito montar o presépio em casa dos meus avós…
O avô desembrulhava o S. José, fazia-nos ver que o importante é acreditar nas pessoas, ser humilde e responsável.
Era a vez da avó desembrulhar a imagem de Maria. Era tão bom desembrulhar a imagem de Maria. Sentíamo-nos protegidos e contentes. A minha avó fazia-nos ver que a coisa melhor do mundo é o amor de mãe. É mágico e poderoso, eterno e indestrutível, é puro e incondicional.
O manto azul de Maria já tinha manchas do tempo, como as mãos da minha avó, mas era tão bonito na mesma.
Depois um de nós punha o burro, outro a vaca, e o mais pequenino punha a estrela. Houve um ano que me calhou a mim pôr a manjedoura, ainda me lembro da minha alegria…
E o menino Jesus?
O menino Jesus era o meu pai que punha, mas só na noite de Natal.
Esse ano não foi diferente dos outros, ou foi, foi sim, era sempre diferente e impossível de acreditar.
Depois da Missa do Galo e antes da ceia, o meu pai foi pôr o menino Jesus nas palhinhas e a magia aconteceu, mais uma vez a magia aconteceu:
De repente, o nosso coração enchia-se de fé e de luz e a nossa alma emanava alegria e amor pelo Deus Menino que nasceu.
Era Natal.

terça-feira, novembro 6

Sábado que vem

- "Nunca dizes nada..."
- "Nunca avisas..."
- "Para a próxima telefona..."
- "Manda mails"

Não tenho jeito nenhum para me fazer publicidade!

http://www.flickr.com/photos/olhoblogdabila/1862814819/

Sempre quero ver quem aparece.

terça-feira, outubro 30

Destino

Não acredito no destino.
Acredito que as coisas acontecem para delas tirarmos uma experiência de vida, boa ou má, o que é diferente da imposição de predestinação.

domingo, outubro 28

Quando eu morrer

Quando eu morrer partilhem o meu sorriso e as minhas recordações.
Avaliem a tristeza e a alegria.
Façam lotes das saudades, das lágrimas e das angústias.
Sorteiem momentos, histórias e gargalhadas.
Dividam ideias, planos e desejos.
Dêem tudo o que for material, caro ou barato, bonito ou feio.
Porque é muito melhor ser do que ter.

Partilhas II

Porque é que "a partilha" só assim é tão bonita e no plural e em família são tão feias?

quarta-feira, outubro 17

Partilhas


Quando tive o meu filho, soube logo que queria ter mais um, dois ou três.
Quantas vezes de noite ficava a admirá-lo, perguntando-me como é que tinha sido capaz de criar tal obra.
Era um sentimento inexplicável, maravilhoso, sentia-me a pessoa mais realizada e agradecida de todo o universo.
Ao mesmo tempo, tinha uma dúvida terrível: achava que se tivesse mais filhos não conseguiria gostar tanto deles como do primeiro.
Claro que quando nasceu a minha filha o amor ainda estava inteiro para lhe dar.
E estaria de novo caso tivesse tido mais filhos.
E ainda permanece intacto para os dois.
Eu não sabia que o amor não fica mais pequeno por o partilharmos.
Dá-se tanto e não se gasta!

Quando escrevi o meu primeiro livro, soube logo que queria escrever mais dois ou três.
Quantas vezes de noite ficava a admirá-lo…

O meu próximo livro sai em Janeiro, pela Porto Editora.

As notícias são boas quando as recebemos, mas passam a óptimas quando as partilhamos.

sexta-feira, outubro 12

Arrumações


As coisas que eu descubro nas minhas arcas...

16-8-1969
Nº. 12
5 Escudos!




terça-feira, outubro 9

Aflições

Ontem assisti a uma cena que pensava que só existia nas novelas, em que toda a gente diz a toda a gente o que pensa sem papas na língua e sem qualquer tipo de constrangimento.
Fiquei seriamente aflita. Odeio esses confrontos. Cada vez mais.
Começo com taquicardia e fico num embaraço extremo, mesmo que a conversa não seja comigo.
Todas as pessoas que assistiram ficaram incomodadas. Profundamente incomodadas.
No fim de ser muitíssimo injusto e arrogante saiu.
Sem dizer nem bom dia nem boa tarde.
E todos os que ficámos lá passamos o resto do dia atordoados e com uma sensação de desconforto, embaraçosa e humilhante.
Sem culpa nenhuma.
Não compreendo o que leva uma pessoa a ser profundamente mal criada, propositadamente desagradável e antipática. Mesmo que tenha razão, que ainda por cima não era o caso.

segunda-feira, outubro 1

Outono

Já sei!
Vou apanhar todas as folhas da minha rua,
vermelhas
amarelas
castanhas
esquecidas
esvoaçantes
e vou fazer o meu livro mais bonito, genuíno e colorido.

quinta-feira, setembro 27

Cunhas, só nos sapatos



Sou com todas as minhas forças a favor da igualdade e da justiça.
Não por uma questão política, mas por respeito, e também por uma educação profundamente cristã, seriamente cristã, onde os conceitos são vividos na prática do dia a dia e não só lidos no catecismo.
Mesmo que na suposta condição social onde cresci se saiba que nem sempre é assim.
É utópico, ingénuo, quimérico, até acriançado, mas eu acho que o mundo devia ser justo por natureza.
E ainda estranho quando não é.
E ainda me revolto quando isso não acontece.
E também me espanta que os outros se espantem com as minhas convicções, que me prejudicam quase sempre, e não fazem de mim melhor pessoa.
Para mim é evidente que tenho que esperar duas horas como os outros na fila do hospital, e que não é diferente só por a minha prima ser a médica de serviço.
Para mim é claro que tenho que esperar meia hora na fila da catequese como os outros e que não é por ser catequista que posso passar à frente – pelo contrário.
Para mim é lógico não precisar de cunhas para o meu filho ficar numa boa turma, com um bom horário, porque na dita lógica da escola, ele precisa e merece-o.
E as bocas abriram-se de espanto ao perceber que eu não tinha metido cunhas, e a minha boca abriu-se ainda mais ao perceber que só com cunhas é que isso acontecia.
E todos olharam para mim pasmados como se eu fizesse parte de um grupo político estranho, onde todas as pessoas acham que são iguais e se tratam por tu e por pá.
As pessoas são diferentes sim, no seu intimo, nos seus valores, no seu desempenho.
O que não equivale a passar por cima dos outros.
O que não é igual a prejudicar alguém em privilégio próprio.
O que não lhes dá o direito, nunca, de não respeitar o próximo, porque é isso mesmo que nos torna diferentes, é o nosso respeito ao próximo.
E quase que peço desculpa, mas não compreendo quando assim não é.

terça-feira, setembro 25

A arca do enxoval


Chegou-me a nostalgia do Outono…
Lavei as toalhas de praia, ainda encontrei uma série de búzios e pedrinhas com cheiro a mar, arrumei os cestos, deixando escapar o odor intenso a protector solar, fazendo prolongar um bocadinho o Verão, prendi fotografias alegres e de cores fortes no quadro de cortiça da salinha pequena e ainda fechei os olhos para me sentir embalar numa onda salgada e tão fria…
Passei cera aos móveis, soltando-se aquele cheirinho a casa das tias velhas, pus brilho no chão, que já não é encerado mas tem verniz, e lembrei-me de um instrumento que havia lá em casa que tinha umas rodas grandes que giravam desencontradas e que puxava o lustro das tábuas corridas meticulosamente enceradas.
Também havia outro auxiliar de limpeza - uma sabrina - que era o parente pobre do aspirador, não tinha corrente eléctrica, mas agora as sabrinas são os sapatos da moda…
Areei as poucas pratas – em casa dos meus avós era um dia inteiro só para as pratas e havia criadagem de farda, cabelo preso e luvas –mas agora há um liquido maravilhoso que não suja as mãos que substitui o algodão mais o jornal, o pano de flanela e a criada.
Fui buscar uma mantinha à arca, que as noites já são frescas e a idade começa a pesar, e fiquei sentada, a viajar no tempo com cheiro a alfazema.
Gosto muito da minha arca do enxoval.

Gosto do conceito de arca do enxoval (é claro que aos doze anos quando a minha tia avó me dava paninhos rendados eu odiava a minha arca).
Até pensei que a minha filha está grandinha e não tem arca, nem sequer tem enxoval…
Maravilhosos lençóis de linho com um M e um L bordados a ponto cruz, tão perfeitos que até os posso pôr do avesso, que a minha mãe mandou bordar na Lixa.
Outros lençóis com flores, sem flores, com folhas, com cruzinhas, rendilhados, bordados a ponto grilhão, ponto cheio, pé de flor, e outros que não me lembro.
Toalhas de mesa, quadradas, redondas, ovais, brancas, azuis, com bainha aberta, com relevo, sem relevo.
Naperons vários, para o cesto do pão, para o tabuleiro do café (sim, porque a minha mãe ensinou-me que nunca se põe um tabuleiro sem pano – e o que é certo é que ponho sempre), paninhos com divisórias para aperitivos, para os copos, de todas as formas e tamanhos imaginários.
Adoro o meu enxoval, apesar de não usar metade, não porque não queira, que as coisas são para lhes dar uso, mas porque não tenho tempo. Não tenho tempo de passar lençóis de linho, que só ficam bonitos se forem bem passados, não tenho tempo para lavar à mão as toalhas de mesa, os naperons quase já não têm utilidade, mas gosto do meu enxoval.
Lembro-me da minha mãe o bordar, lembro-me da minha avó mo dar, lembro-me das minhas tias me darem a escolher, levando-me ao quarto das cómodas com cheiro a naftalina.
Também gosto das coisas novas e práticas que fui comprando, das das colchas das camas dos miúdos com cores fortes que quase não precisam ser passadas a ferro, dos lençóis com elástico que prendem bem à cama, das toalhas de mesa engraçadas e modernas.
Mas sabe-me bem de vez em quando pôr um lençol com as minhas iniciais, pôr uma bonita toalha de mesa bordada com o pano do tabuleiro a condizer.
Eu só sei fazer ponto cruz. Não faço renda nem croché, muito menos ponto cheio ou bainha aberta, por isso os meus filhos, na arca do enxoval vão ter as minhas coisas, que chegam bem para todos, e vão ter mimo, recordações maravilhosas, atenção, gargalhadas e choros, dias alegres e tristes, porque a arca do enxoval tem a nossa história, dos nossos pais e avós, da nossa infância, é por isso que eu gosto tanto da minha…

segunda-feira, agosto 13

Até já



(clicar devagarinho sff -Desenho A.Seixas)

quarta-feira, agosto 1

A cidade feliz

Vi esta noite no meu sonho
sombras difusas, caras conhecidas.
O que para aqui transponho,
são essas memórias adormecidas.

Havia uma única lei:
Verdade, amor e amizade
estavam no texto d'El Rei
que fazia feliz a cidade.

Aquele díficil acordar,
roubou-me assim a utopia,
mas não o querer sonhar!

E acredito que um dia
um mundo com mais coração,
faça deste sonho... antevisão.

sexta-feira, julho 27

Parabéns, meu amor

Parabéns meu amor.
Parabéns por seres como és, o ser mais puro e verdadeiro que eu conheço.
Parabéns pela tua presença discreta e serena em todos os momentos da minha vida.
Parabéns por nunca te teres afastado da tua maneira de ser e pensar, do modo de agir e de estar, da maneira tão genuína como me amas e amas o que está à tua volta, com uma força que quem te conhece sabe que tens.
Obrigada por sossegares com a tua calma o meu espírito inquieto, e por me mostrares que só se alcançam as coisas que queremos com paciência e persistência.
Obrigada por me ensinares que tudo mas tudo merece respeito e nunca nada mas nada pode ser maltratado.

Obrigada por respeitares as coisas que gosto, tantas vezes diferentes das tuas.
Obrigada pelas recordações de infância e as desilusões de adulto.
Obrigada por me teres feito gostar da natureza e dos animais.
Obrigada pelos momentos tão felizes, mas tão felizes, e obrigada pelos momentos não tão bons, porque também e sobretudo esses têm posto à prova o nosso amor.
Parabéns pelos nossos filhos maravilhosos e por seres para eles o maior exemplo de dignidade.
Mesmo quando te digo que podias ser diferente, gosto mesmo que sejas assim.
Obrigada por gostares de mim, porque o meu amor sabes bem que o terás para sempre, e mais além…

quinta-feira, julho 26

A sombra do Chorão

Disse-me que aquilo de que mais gostava, era de ficar sem pressas, debaixo de um Chorão.
Não consegui responder e corei!

quarta-feira, julho 25

Atropelos

Só fui preparada para os grandes embates da vida,
aqueles mesmo trágicos, que viram a nossa vida do avesso,
põe-nos o coração de fora e a razão escondida,
e nos fazem pôr em causa a existência.
A esses sim, consigo dar uma resposta forte, digna e até agora consegui sempre vencê-los, umas vezes juntando-me a eles, outras conformando-me.
Mas tenho uma enorme dificuldade em lidar com os atropelos do dia a dia,

que não nos viram a vida, mas moem, desencantam, entristecem, angustiam, magoam…
É que os grandes embates, é a própria vida que os dá, os outros são as pessoas.
E isso é que dói.

Amizade virtual

A amizade virtual não existe; é uma contradição em termos, ou é amizade ou é virtual.

segunda-feira, julho 23

VIDA


Foram 5 minutos de intervalo entre um mail e um telefonema. Uma notícia muito má, outra óptima.

Tenho o coração dividido entre a tristeza e alegria e cheio de solidariedade.

É, em ambos os casos, disto que a vida é feita e é de vida que falo.

sexta-feira, julho 20

Três

Um
Se me contassem há um ano atrás, não acreditaria:
Ele é exemplar em várias facetas, amigo como poucos, verdadeiramente preocupado com o outro. Senhor de iniciativa, com uma capacidade fora do comum para o “trabalho é trabalho, cognac é cognac”. Ainda assim, teima em fazer do trabalho algo tão saboroso quanto o melhor “Rémy Martin” e do momento do digestivo pretexto para melhor ajudar quem sente que precisa.
Capaz de ser dinamizador no trabalho e na amizade para feitos fora-do-comum, foi atropelado na alma que não consegue ver o mal nos outros. Provavelmente o seu único “defeito” de origem que fez com que um e outros o atraiçoassem de forma soez.
A sua capacidade e os verdadeiros amigos, bem como a justiça (nas suas diferentes vertentes) encarregar-se-ão de o repor no (seu) lugar onde é feliz ajudando os outros.

Dois
Hoje em dia quem está equipado com determinado tipo de armas “safa-se”. Quem pelo contrário não está, tem grandes dificuldades de se impor nesta sociedade, ainda que com virtudes bem maiores de que essas armas da moda. Ela merece, ela luta, mas é pisada por uma vida para a qual continua a olhar com ternura. Em dia de entrevista, mais um sorriso, mais uma esperança, mais um exemplo dado aos que tem a sorte de a conhecer. Eu que a conheço ainda melhor do que julga, sei por isso mesmo (que não por artes divinatórias) que a esperança tem razão de ser.

Três
Nunca tinha passado por nada parecido: A maior lição de vida foi-me dada por quem não sabia se a teria muito mais tempo.
Eu sei, eu acredito eu quero ouvir-te mais. Quem me conhece sabe a facilidade com que sai a lágrima. Neste caso tem sido umas quantas que secarão quando te vir e ouvir de novo a sorrir como só tu sabes. No registo escrito, uma das últimas entradas diz: "(…) mas sabes estou feliz, fui feliz e valeu sempre a pena”
Estou à tua espera para transformar esse passado em futuro e continuar a aprender contigo como se vive. Volta depressa, por favor!
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Obrigado aos três. Contem sempre incondicionalmente comigo.

quinta-feira, julho 19

Pensando bem...


Está um dia de sol maravilhoso, a claridade iluminou-me a alma,
o calor aqueceu-me o coração.
Os gatos que resolveram morar no telhado da minha garagem esticam-se preguiçosos,
os pássaros madrugaram mais contentes e afinados do que o habitual.
Tenho a casa arrumada.
Amanhã é sexta-feira.
Não me dói nada.
Sinto o meu filho contente e a minha filha sorri muito.
Pensando bem, tenho é que agradecer, agradecer...