terça-feira, setembro 25

A arca do enxoval


Chegou-me a nostalgia do Outono…
Lavei as toalhas de praia, ainda encontrei uma série de búzios e pedrinhas com cheiro a mar, arrumei os cestos, deixando escapar o odor intenso a protector solar, fazendo prolongar um bocadinho o Verão, prendi fotografias alegres e de cores fortes no quadro de cortiça da salinha pequena e ainda fechei os olhos para me sentir embalar numa onda salgada e tão fria…
Passei cera aos móveis, soltando-se aquele cheirinho a casa das tias velhas, pus brilho no chão, que já não é encerado mas tem verniz, e lembrei-me de um instrumento que havia lá em casa que tinha umas rodas grandes que giravam desencontradas e que puxava o lustro das tábuas corridas meticulosamente enceradas.
Também havia outro auxiliar de limpeza - uma sabrina - que era o parente pobre do aspirador, não tinha corrente eléctrica, mas agora as sabrinas são os sapatos da moda…
Areei as poucas pratas – em casa dos meus avós era um dia inteiro só para as pratas e havia criadagem de farda, cabelo preso e luvas –mas agora há um liquido maravilhoso que não suja as mãos que substitui o algodão mais o jornal, o pano de flanela e a criada.
Fui buscar uma mantinha à arca, que as noites já são frescas e a idade começa a pesar, e fiquei sentada, a viajar no tempo com cheiro a alfazema.
Gosto muito da minha arca do enxoval.

Gosto do conceito de arca do enxoval (é claro que aos doze anos quando a minha tia avó me dava paninhos rendados eu odiava a minha arca).
Até pensei que a minha filha está grandinha e não tem arca, nem sequer tem enxoval…
Maravilhosos lençóis de linho com um M e um L bordados a ponto cruz, tão perfeitos que até os posso pôr do avesso, que a minha mãe mandou bordar na Lixa.
Outros lençóis com flores, sem flores, com folhas, com cruzinhas, rendilhados, bordados a ponto grilhão, ponto cheio, pé de flor, e outros que não me lembro.
Toalhas de mesa, quadradas, redondas, ovais, brancas, azuis, com bainha aberta, com relevo, sem relevo.
Naperons vários, para o cesto do pão, para o tabuleiro do café (sim, porque a minha mãe ensinou-me que nunca se põe um tabuleiro sem pano – e o que é certo é que ponho sempre), paninhos com divisórias para aperitivos, para os copos, de todas as formas e tamanhos imaginários.
Adoro o meu enxoval, apesar de não usar metade, não porque não queira, que as coisas são para lhes dar uso, mas porque não tenho tempo. Não tenho tempo de passar lençóis de linho, que só ficam bonitos se forem bem passados, não tenho tempo para lavar à mão as toalhas de mesa, os naperons quase já não têm utilidade, mas gosto do meu enxoval.
Lembro-me da minha mãe o bordar, lembro-me da minha avó mo dar, lembro-me das minhas tias me darem a escolher, levando-me ao quarto das cómodas com cheiro a naftalina.
Também gosto das coisas novas e práticas que fui comprando, das das colchas das camas dos miúdos com cores fortes que quase não precisam ser passadas a ferro, dos lençóis com elástico que prendem bem à cama, das toalhas de mesa engraçadas e modernas.
Mas sabe-me bem de vez em quando pôr um lençol com as minhas iniciais, pôr uma bonita toalha de mesa bordada com o pano do tabuleiro a condizer.
Eu só sei fazer ponto cruz. Não faço renda nem croché, muito menos ponto cheio ou bainha aberta, por isso os meus filhos, na arca do enxoval vão ter as minhas coisas, que chegam bem para todos, e vão ter mimo, recordações maravilhosas, atenção, gargalhadas e choros, dias alegres e tristes, porque a arca do enxoval tem a nossa história, dos nossos pais e avós, da nossa infância, é por isso que eu gosto tanto da minha…

5 comentários:

Miguel disse...

Aqui a "Arca do enxoval";
ali a "Caixa da Avó" .

Os sentires que tu guardas em espaços tão pequenos!
=
Pelo que vejo e espero este outono não cairá folha, mas antes crescerão algumas como esta.

Ósculo

kurika disse...

Lindo texto, cheio de ternura e alguma nostalgia...

Um dia a minha avó ofereceu-me um lenço dos dela. De caxemira. De cores vivas.Alegre. Como ela. E dizem como eu.
Nunca o usei, mas guardo-o como um tesouro, tipo "arca de enxoval" onde posso sentir o seu cheiro e todo o seu amor dela por mim...

Um beijinho

E sim, o Outono já chegou, a contar pelas noites mais frescas...

boleia disse...

eu adoro o outono!

rascunhos disse...

Gostei imenso deste texto.

E se for nostalgia, que seja!

foryou disse...

Renda? Croché? O que é isso?? :P

A arca do enxoval... também tenho uma :) adoro as histórias que ela me conta :)